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Em que moeda fazer DCA? Por que só faço DCA nas grandes
Não vou te dizer que moeda vai subir, nem prevejo quem está prestes a decolar; sobre isso não direi uma palavra sequer. Esta nota trata de uma coisa só: por um ângulo de risco, que tipo de coisa de fato merece a palavra «DCA».
- De cara: eu não recomendo moedas
- A lógica do DCA decide que ativo combina com ele
- Por que só faço DCA nas grandes
- Por que as altcoins não combinam com o DCA
- Dentro das grandes, como eu reparto
- Se você quer apostar em altcoins, não use o dinheiro do DCA
- Resumindo: escolha um ativo primeiro por se ele merece o longo prazo
«Zhou An, em que moeda você faz o seu DCA? Posso comprar a mesma que você?»: recebo bastantes mensagens privadas desse tipo. A minha resposta sempre decepciona um pouco: só faço DCA nas grandes, e não vou te dizer o que comprar. A razão não é que eu esteja guardando algo, é que eu de fato acredito que a pergunta «em que fazer DCA?» tem que ser respondida com lógica de risco, não se apoiando em quem grita a dica.
Nesta nota exponho a minha lógica de escolha. Depois de lê-la você não precisa fazer o mesmo que eu, mas espero que aprenda a julgar por conta própria se algo de fato merece entrar no seu plano de DCA.
De cara: eu não recomendo moedas
Não prevejo preços, não digo quem vai subir nem quem vai cair, nem vou te dar uma «lista de acompanhamento prioritário». Primeiro, porque não tenho essa capacidade: até para decidir quando eu mesmo deveria vender, muitas vezes não estou seguro; segundo, porque tenho clareza demais de como se perde comprando moedas atrás do grito de outro, e não quero que você repita o meu próprio tropeço.
Então tudo o que vem abaixo trata da lógica para escolher o ativo e do bom senso do risco, não de recomendação de investimento. Se eu menciono BTC e ETH é porque são exemplos incontornáveis ao falar de «as grandes», não porque eu esteja te dizendo para comprar. Comprar ou não, e quanto, é sempre decisão sua, e as consequências também você é que carrega.
A lógica do DCA decide que ativo combina com ele
Antes de pensar o «o que comprar», é preciso voltar a para que serve o DCA em si. O DCA aposta no tempo: comprar sempre num tempo fixo e num valor fixo, e por meio do investimento contínuo de longo prazo fazer a média do custo em direção a um ponto intermediário enquanto você aguenta a volatilidade violenta do meio. Todas as vantagens dele se apoiam numa premissa implícita: que essa coisa consiga existir no longo prazo e, vista no longo prazo, tenda à alta.
Assim que essa premissa se quebra, o DCA vira de cabeça para baixo na hora. Se algo termina em zero, quanto mais você mantém o DCA, mais dinheiro coloca e mais fundo perde. Então a pergunta «em que fazer DCA?» equivale, em essência, a: que coisas têm alta probabilidade de viver o suficiente e resistir a uma rodada após a outra de altas e baixas? A resposta aponta, naturalmente, para aqueles ativos de consenso mais amplo, melhor liquidez e mais difíceis de apagar de uma penada.
Se a lógica de fundo do DCA ainda te parece um pouco embaçada, convém ler primeiro Vale a pena fazer DCA em bitcoin?. Uma vez que você tiver bem pensado isso de que «o DCA aposta no tempo», a lógica de escolha desta nota vai fluir muito mais.
Por que só faço DCA nas grandes
Quando digo «as grandes», me refiro a ativos como BTC e ETH, os de maior capitalização, mais tempo de existência e reconhecidos por mais gente. Só faço DCA neles, por três motivos, todos partindo do risco.
Um, elas vivem muito, o que encaixa com a premissa de longo prazo do DCA. O bitcoin vem desde 2009 até hoje, e o ethereum também já tem vários anos; passaram por várias rodadas de ursos profundos e continuam vivos. Esse «histórico de ter sobrevivido», embora não garanta o futuro, ao menos indica que não são daquelas coisas que somem com um sopro de vento. Uma corrida longa como o DCA precisa de um ativo que consiga te acompanhar até o fim.
Dois, volatilidade relativamente controlável (atenção, só relativamente). As grandes também caem de um jeito que assusta: o bitcoin, depois de marcar um topo de uns US$ 69 mil em novembro de 2021, em certo momento caiu para perto de US$ 15,5 mil por volta de novembro de 2022, uma queda de cerca de 77% (dados de registros públicos de mercado). Mas, comparadas àquelas moedinhas que caem 95% ou vão a zero o tempo todo, as grandes ao menos no histórico delas se recuperaram. O DCA aguenta o vermelho, não aguenta o ir a zero.
Três, boa liquidez: quando eu quero frear, eu consigo. As grandes se compram e vendem a qualquer momento, com pouco spread. As moedinhas muitas vezes são fáceis de comprar e difíceis de vender; quando você de fato quer sair, pode não haver quem as compre de você. Para um plano de DCA que talvez dure vários anos, esse «conseguir entrar e sair» é importante.
Por que as altcoins não combinam com o DCA
Não tenho preconceito contra as altcoins, mas tenho claro que elas simplesmente não encaixam nessa lógica do DCA.
O ponto mais de fundo: a esmagadora maioria das altcoins não vive o longo prazo de que o DCA precisa. A cada mercado de alta brota uma grande safra de moedas novas, e quando passa a baixa muitas delas já não têm voz, foram a zero. Fazer DCA em algo que vai a zero equivale a jogar dinheiro de forma contínua num poço condenado a nunca encher: quanto mais com diligência você fizer DCA, mais perde. Isso não é questão de ter fé ou não, é questão de matemática.
Há outros pontos que também não encaixam: as altcoins têm uma volatilidade mais extrema, e a vantagem do DCA de fazer a média do custo é engolida pela enorme incerteza; muitas altcoins têm liquidez ruim, e quando você quiser manter no longo prazo e depois sair, talvez não consiga; as histórias delas giram rápido demais, e a narrativa da moda de hoje talvez no próximo ciclo ninguém mais mencione. O DCA é uma modalidade de «devagar» e «estável», enquanto a natureza das altcoins é «rápido» e «aposta»: meter o rápido e a aposta dentro do quadro do devagar e do estável faz com que se percam as vantagens dos dois lados. Sobre se vale a pena mexer com altcoins e quanto, escrevi à parte Vale a pena mexer com altcoins? Que fatia não te quebra.
Dentro das grandes, como eu reparto
Mesmo escolhendo só entre as grandes, fica o problema de «como repartir». Aqui também não há resposta padrão; só conto as práticas comuns e a ideia por trás, e você pondera.
- Fazer DCA numa só. Muitos iniciantes simplesmente fazem DCA só em bitcoin: simples, sem dor de cabeça, e não é errado. Quanto menos ativos, menos você se enrola e se complica com a repartição.
- Repartir entre BTC e ETH. Para quem quer um pouquinho mais de diversificação, a prática comum é dar ao bitcoin a proporção maior e ao ethereum uma menor. Quanto de cada um depende do seu julgamento e da sua tolerância; ninguém dita que tenha que ser tal proporção.
- Não acrescente altcoins para «diversificar». Isto é o que quero reforçar: ajustar proporções dentro das grandes se chama diversificar; meter altcoins não se chama diversificar, se chama somar risco ao plano de DCA. Se você de fato quer diversificar no nível da carteira, o caminho a seguir é outro.
Se você quer pensar bem, pela ótica da carteira inteira, quanto «a parte estável» e «a parte de aposta» ocupam dentro da sua cripto, pode ler Núcleo e satélite: como organizar o seu dinheiro. O DCA costuma ficar no bloco do «núcleo».
Se você quer apostar em altcoins, não use o dinheiro do DCA
Não digo que você não possa mexer com altcoins de jeito nenhum. As pessoas têm o desejo de tentar uma aposta, e é o mais normal. Eu mesmo separei uma pitada de dinheiro para brincar. Mas eu a separo por completo do DCA:
O dinheiro do DCA segue a regra de «longo prazo, grandes, disciplina»; o dinheiro com que quero apostar em altcoins eu tomo como uma tentativa pequena, de uma só vez, que tanto faz se eu perder inteira, jamais em DCA, jamais repondo posição, jamais usando o dinheiro da conta de DCA. Assim os dois lados ficam limpos: o DCA não se contamina com o alto risco das altcoins, e a aposta, se der errado, também não arruína o meu plano de longo prazo. Em Quando sair, quando reconhecer o erro falei de como fixar de antemão as regras para esse dinheiro de aposta.
Resumindo: escolha um ativo primeiro por se ele merece o longo prazo
Para fechar esta nota numa frase: em que fazer DCA não se deve perguntar como «qual vai subir?», e sim como «qual merece o longo prazo?». Só os ativos grandes que conseguem existir no longo prazo, com boa liquidez e consenso amplo, encaixam na lógica do DCA de apostar no tempo; as altcoins têm alta taxa de ir a zero, a natureza delas é o rápido e a aposta, e metê-las no DCA só deixa os dois lados ruins.
Eu não escolho por você qual especificamente nem quanto de cada uma: isso é assunto do seu julgamento e da sua tolerância. O que eu posso te dar é esse filtro que parte do risco. Se você quer apostar em altcoins, use outro dinheiro que você possa perder e trace uma fronteira clara com o DCA. Assim, o seu DCA é de fato um DCA.
Perguntas frequentes
Faço DCA em bitcoin ou em ethereum?
Esta nota não vai escolher um específico por você. Por um ângulo de risco, ativos grandes como BTC e ETH, que existem há tempos, com alta liquidez e consenso amplo, combinam melhor com o DCA de longo prazo do que o fluxo interminável de moedinhas. Como repartir dentro das grandes depende do seu próprio julgamento e tolerância; não há resposta padrão.
Por que você não recomenda fazer DCA em altcoins?
O DCA aposta em continuar existindo no longo prazo e em tender à alta, e a esmagadora maioria das altcoins não vive para ver esse dia. Ao longo da história, incontáveis moedinhas foram a zero ou sangraram por anos; fazer DCA em algo que vai a zero só te faz perder mais quanto mais investe. As altcoins se parecem mais com uma aposta de risco pequena e de uma só vez, desencaixada da lógica de longo prazo do DCA.
Tudo bem fazer DCA numa única moeda?
Tudo bem; muitos iniciantes fazem DCA só em bitcoin, o que é simples e não é errado. Se você quer alguma diversificação, repartir entre BTC e ETH é uma prática comum. O ponto não é quantas você compra, e sim não meter altcoins no seu plano de DCA achando que está diversificando: isso não é diversificar, é somar risco.
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